IA na animação da Dior levanta suspeitas
A campanha de Natal da Dior, assinada por Sylvain Chomet, foi apresentada como desenhada à mão. Mas animadores apontaram sinais que levantaram suspeitas de uso de IA no processo.

Em resumo
A campanha de Natal da Dior, lançada em 6 de novembro de 2026 e dirigida por Sylvain Chomet, passou a ser questionada por animadores após sinais em frames que sugerem possível uso de IA. Segundo o B9, a marca afirma ter seguido técnicas tradicionais, mas não explicou publicamente como a animação final foi produzida.
A campanha de Natal da Dior virou alvo de suspeitas de uso de IA porque, segundo o portal B9, animadores identificaram sinais visuais que não combinam com uma animação totalmente desenhada à mão. A marca apresentou o projeto como artesanal, mas a discussão começou quando profissionais passaram a analisar os frames quadro a quadro e encontraram inconsistências em mãos, olhos, letras e movimentos.
O que a Dior disse sobre a campanha
A Dior apresentou o curta “Christian Dior’s Night in Color” como uma produção construída ao longo de meses pelo cineasta francês Sylvain Chomet, conhecido por obras como As Bicicletas de Belleville e O Mágico. De acordo com o B9, Chomet afirmou no site da marca que o trabalho foi feito com técnicas tradicionais e que o processo seguiu a lógica dos anos 1940.
A empresa também divulgou material de bastidores, com imagens do diretor desenhando personagens, além de estudos, storyboards e bonecos usados no desenvolvimento. A narrativa oficial da campanha reforça a ideia de um processo artesanal, com centenas de horas de trabalho especializado.
Por que os animadores levantaram suspeitas
O questionamento surgiu poucas horas após a estreia. Profissionais de animação e espectadores começaram a compartilhar frames que, na avaliação deles, mostram sinais de algo além da animação tradicional.
Entre os pontos citados estão:
- dedos extras ou desaparecendo em algumas cenas;
- mãos deformadas;
- olhos mudando de forma;
- textos que deixam de formar palavras;
- elementos arquitetônicos com geometria alterada de um quadro para outro.
Segundo o B9, até a identificação do cachorro de Christian Dior aparece distorcida em determinados momentos. Também houve críticas à aparência do próprio Christian Dior, que muda de proporção e de traços ao longo do filme.
A hipótese de IA nos quadros intermediários
Uma das suspeitas levantadas é que os desenhos de Chomet possam ser reais, mas que IA tenha sido usada na etapa de animação dos quadros intermediários, os chamados in-betweens. Na animação tradicional, essas transições são responsáveis por ligar as poses principais e dar fluidez ao movimento.
Para alguns profissionais, o problema estaria justamente nessas transições. Em exemplos compartilhados nas redes, mãos se fundem, olhos deformam durante piscadas e objetos perdem coerência enquanto os personagens se movimentam.
Outro ponto citado é a sensação de movimento excessivamente “flutuante”, descrita por críticos como algo mais próximo de uma transformação contínua de imagem do que de uma sequência de desenhos feitos quadro a quadro. Também foi mencionada a ausência do chamado line boil, a vibração natural das linhas que costuma aparecer quando os contornos são redesenhados entre frames.
Nenhum desses sinais, isoladamente, prova o uso de IA. Mas, juntos, eles alimentaram a suspeita de que a campanha pode ter recorrido a ferramentas generativas em alguma etapa do processo.
O que os bastidores mostram, e o que não mostram
A Dior publicou bastante conteúdo de making of. Há imagens de Chomet desenhando, além de ilustrações, estudos de personagens, storyboards e bonecos de apoio. Isso comprova que existe trabalho humano real na origem visual do projeto.
Mas, segundo a discussão relatada pelo B9, esses materiais não esclarecem a etapa que mais interessa aos críticos: como os desenhos foram transformados na animação final de seis minutos. Para os profissionais que levantaram a hipótese de IA, mostrar concept art e keyframes não exclui a possibilidade de uma ferramenta generativa ter produzido ou auxiliado os quadros intermediários.
A repercussão no setor de animação
O caso ganhou força porque o filme foi apresentado como uma peça importante de moda, cinema e animação, com um elenco de peso. Robert Pattinson narra o curta, Rihanna dá voz à Lucky Star, Louis Garrel interpreta Christian Dior e Camille Cottin vive Marlene Dietrich. O elenco ainda inclui Josh O’Connor, LaKeith Stanfield, Greta Lee, Nine d’Urso e Nadia Tereszkiewicz.
Com tanta atenção em torno da campanha, a discussão sobre a técnica usada ganhou dimensão maior do que a de uma simples peça publicitária. De acordo com o B9, o Cartoon Brew, uma publicação especializada em animação, chegou a alterar sua cobertura e retirou do título a expressão “hand-drawn” depois da repercussão.
O editor Jamie Lang disse que as evidências disponíveis faziam parecer que IA havia sido usada e afirmou ter procurado Sylvain Chomet e a assessoria da Dior em busca de esclarecimentos. Segundo o portal, não houve resposta.
A Dior explicou o caso publicamente?
Até a publicação da matéria original, a Dior não havia esclarecido publicamente se alguma ferramenta de IA generativa foi usada na animação. Essa ausência de resposta foi parte central da controvérsia.
O ponto mais importante, neste momento, é que há suspeitas e há sinais que chamaram atenção de profissionais, mas não existe confirmação pública de uso de IA. O próprio B9 destaca que erros de animação também podem acontecer em produções tradicionais, especialmente quando há prazos apertados, composição digital ou equipes pequenas.
Por que o caso chamou tanta atenção agora
A controvérsia chegou em um momento em que marcas de luxo e grandes empresas têm reforçado o valor do artesanal como resposta ao avanço das imagens sintéticas. Segundo o B9, esse contexto torna a discussão ainda mais sensível, porque a promessa de um trabalho manual passa a ser parte central da comunicação.
Além disso, outras marcas também vêm apostando em processos feitos à mão, pintura, stop-motion e produção física em campanhas recentes. Nesse cenário, qualquer dúvida sobre o uso de IA em uma peça que se vende como artesanal tende a repercutir mais.
Perguntas frequentes
A Dior confirmou o uso de IA na campanha?
Não houve confirmação pública até a publicação da matéria original do B9. A marca apresentou a campanha como desenhada à mão, mas não explicou publicamente se usou IA generativa em alguma etapa.
Os erros vistos no vídeo provam uso de IA?
Não. O próprio material citado pelo B9 lembra que animação tradicional também pode ter erros, deformações e inconsistências. Os sinais levantaram suspeitas, mas não comprovam o uso de IA por si só.
O que está no centro da controvérsia?
A principal dúvida é como os desenhos atribuídos a Sylvain Chomet foram convertidos na animação final. Os bastidores mostram trabalho humano, mas não esclarecem totalmente a produção dos quadros intermediários.
O que observar daqui para frente
Enquanto a Dior não detalhar o pipeline de produção, a campanha seguirá sob escrutínio. O caso mostra como o público e os profissionais de animação estão cada vez mais atentos à diferença entre uma peça realmente desenhada à mão e uma produção que pode ter usado IA em parte do processo.
Para marcas, a lição é direta: quando o artesanal é o argumento principal, a transparência sobre a produção precisa acompanhar a promessa.



