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IA na Patagônia: Argentina corta impostos

A Argentina quer transformar a Patagônia em um polo de data centers de inteligência artificial com menos impostos e sem novas regras. O plano já atrai empresas, mas também levanta dúvidas ambientais e econômicas.

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Data centers de IA na Patagônia, com paisagem aberta e ventos fortes
Foto: Olhar Digital

Em resumo

A Argentina, sob Javier Milei, quer atrair data centers de inteligência artificial para a Patagônia com redução de impostos e sem regulamentação específica. Segundo o portal Olhar Digital, a proposta interessa a empresas como OpenAI, Amazon e Google, mas gera críticas sobre consumo de energia, água, soberania tecnológica e impactos locais.

A Argentina quer transformar a Patagônia em um polo de data centers de inteligência artificial, com redução de impostos e sem novas regras específicas para o setor. Segundo o portal Olhar Digital, a estratégia do governo de Javier Milei já despertou o interesse de grandes empresas de tecnologia, mas também abriu uma discussão sobre impacto ambiental, uso de recursos naturais e benefícios reais para a população local.

O que a Argentina está propondo

De acordo com o Olhar Digital, o plano argentino combina dois incentivos principais: menos impostos para investimentos bilionários e ausência de regulamentação específica para a inteligência artificial. A ideia é criar um ambiente favorável para atrair estruturas de processamento de dados voltadas à IA, especialmente na Patagônia.

Milei afirmou, em encontro com a Câmara de Comércio dos Estados Unidos, que: “Não vamos regulamentar a inteligência artificial. Vamos deixá-la livre”. A fala resume a linha adotada pelo governo, que aposta em um modelo mais aberto para competir por investimentos internacionais.

Por que a Patagônia entrou no radar

A região reúne características consideradas estratégicas para esse tipo de empreendimento. Entre os fatores citados estão grandes áreas disponíveis, temperaturas amenas, ventos fortes e acesso ao gás da formação de xisto de Vaca Muerta, que pode ajudar na geração de energia e no resfriamento das instalações.

Essas condições chamaram a atenção de empresas e investidores, em um cenário no qual comunidades dos Estados Unidos e da Europa têm contestado novos projetos por causa da disputa por eletricidade. A Argentina tenta aproveitar essa janela para se posicionar como destino competitivo para data centers de IA.

Quem demonstrou interesse

Segundo registros de visitantes obtidos pela Associated Press e citados pelo Olhar Digital, representantes de empresas e investidores do setor se reuniram com o presidente e seus assessores nos últimos meses. Entre os nomes mencionados estão:

  • OpenAI
  • Amazon
  • Google
  • Oracle
  • Peter Thiel

A movimentação também envolve a desenvolvedora de data centers Crusoe, que procurou autoridades argentinas neste ano para discutir investimentos apoiados pelo governo dos Estados Unidos. A empresa participou da construção do principal campus da OpenAI no Texas.

Outro projeto em negociação é o da polonesa Green Capital, que planeja investir US$ 3 bilhões em um complexo na Patagônia. A estrutura seria alugada a grandes empresas de tecnologia para processamento de IA, mas ainda não tem cliente definido.

O incentivo fiscal em discussão

A proposta defendida por Milei prevê reduzir de 25% para 15% a alíquota do imposto de renda corporativo para investimentos de pelo menos US$ 1 bilhão ligados à inteligência artificial e a outros setores emergentes. O texto ainda aguarda aprovação do Senado.

Na prática, o governo busca tornar o país mais atraente para projetos de grande porte, especialmente aqueles que exigem infraestrutura pesada, alto consumo de energia e grandes áreas para instalação.

As críticas ao modelo

Apesar do apelo econômico, a estratégia levanta uma série de questionamentos. Um dos pontos mais citados é a ausência de contrapartidas para o mercado local. Segundo o material publicado pelo Olhar Digital, as empresas não precisam reservar capacidade computacional para a Argentina nem divulgar quanto de água e energia seus empreendimentos consumirão.

Pesquisadores e ambientalistas também alertam para a soberania tecnológica. Alan Rocha Varsanyi, do grupo argentino Observatorio Petrolero Sur, avalia que a capacidade de processamento pode ser usada principalmente para atender à demanda internacional das companhias contratantes, e não para estimular o desenvolvimento tecnológico local.

Além disso, a falta de regras específicas levanta preocupações sobre riscos como vigilância em massa e ataques cibernéticos. Nicolás Wolovick, professor de ciência da computação da Universidade Nacional de Córdoba, teme que o país se transforme em um laboratório para tecnologias que não seriam testadas em mercados mais regulados.

Projeto bilionário e resistência local

Na província de Chubut, a Green Capital planeja instalar seu complexo em uma área de 130 mil hectares arrendada de 14 proprietários rurais. Entre eles está a família de Francisco Sáenz, engenheiro agrônomo e criador de ovelhas que vê no empreendimento uma alternativa de renda diante do declínio da atividade pecuária.

A construção não deve começar antes de 2028. Quando estiver em operação, o campus poderá consumir, em um ano, cerca de 2,7 vezes a eletricidade utilizada por toda a cidade de Buenos Aires em 2025, segundo cálculo da Associated Press.

A empresa afirma que produzirá a própria eletricidade, com turbinas eólicas, fazendas solares e geradores a gás. Já as autoridades provinciais esperam que o projeto atraia bilhões de dólares em investimentos, crie empregos especializados e ofereça um mercado para o excedente de energia eólica.

Mesmo assim, a proposta enfrenta resistência em Trelew, cidade próxima ao local previsto para a construção. Os estudos ambientais ainda estão em andamento, as licenças seguem pendentes e a empresa não detalhou o consumo de água nem a participação do gás na geração de energia.

A reação local ganhou força com mobilizações presenciais e online sob o lema “Trelew Livre de Data Centers”. A resistência também chegou ao Congresso, onde a oposição conseguiu modificar uma proposta de flexibilização das regras para a propriedade de terras por estrangeiros e bloquear o plano de Milei para permitir que agentes de inteligência artificial controlassem empresas.

O que está em jogo

O caso da IA na Patagônia mostra como países podem disputar investimentos em tecnologia com incentivos fiscais e menos barreiras regulatórias. Ao mesmo tempo, expõe um dilema conhecido: como atrair capital sem abrir mão de transparência, controle ambiental e benefícios concretos para a população.

No centro dessa disputa estão três temas principais:

  • uso de energia e água em larga escala
  • destino econômico da infraestrutura instalada
  • limites para o uso de inteligência artificial sem regras claras

Se o plano avançar, a Argentina pode ganhar espaço na corrida global por data centers. Mas, como mostra a repercussão do caso, o custo ambiental e social ainda precisa ser medido com mais clareza.

Perguntas frequentes

O que a Argentina quer fazer na Patagônia?

O governo quer atrair data centers de inteligência artificial para a região, com menos impostos e sem novas regras específicas para o setor.

Quais empresas aparecem ligadas ao plano?

Segundo o Olhar Digital, houve interesse de OpenAI, Amazon, Google, Oracle, Peter Thiel e da desenvolvedora Crusoe. A Green Capital também negocia um projeto na região.

Por que o projeto gera polêmica?

As críticas envolvem consumo de energia e água, falta de transparência sobre impactos ambientais, ausência de contrapartidas para o mercado argentino e riscos ligados à falta de regulamentação.